Publicado em 25/01/2018 às 00h01

Lula está mais perto da prisão do que da Presidência

Em Porto Alegre, o trio de desembargadores não hesitou em apontar Lula como o chefe do enorme esquema de propinas da Petrobras, comprometendo suas expectativas de voltar às eleições de outubro

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Lula acompanha o seu julgamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Um operário que venceu a fome e conduziu o Brasil ao topo, ou o chefe de um dos maiores esquemas de corrupção da história: ninguém é indiferente a Luiz Inácio Lula da Silva em um país que se debate entre levá-lo à Presidência ou à prisão.

Aos 72 anos, o destino de quem Barack Obama chamou, há uma década, de "o cara", ficou ainda mais sombrio nesta quarta-feira (24), quando um tribunal de apelações confirmou sua condenação por corrupção e lavagem de dinheiro, elevando a pena a 12 anos e um mês de prisão.

Em Porto Alegre, o trio de desembargadores não hesitou em apontar Lula como o chefe do enorme esquema de propinas da Petrobras, comprometendo suas expectativas de voltar às eleições de outubro à Presidência que ocupou entre 2003 e 2010.

Ele poderá continuar recorrendo em liberdade, mas o tempo se esgota para o ícone da esquerda.

"O ex-presidente foi um dos articuladores, se não o principal, do amplo esquema de corrupção" na Petrobras, argumentou um dos juízes em seu voto.

Mas o ex-torneiro mecânico, que comandou o milagre econômico do Brasil, já burlou vários finais durante sua carreira.

Esta manhã, em seu quarte-general no cinturão industrial de São Paulo, Lula disse estar com a consciência tranquila de não ter cometido nenhum crime.

Favorito nas pesquisas, Lula se considera vítima de um pacto das elites para impedir que vença as eleições de outubro, em uma guerra que começou em março de 2016 com a Polícia acordando-o ao amanhecer para levá-lo para depor.

Não houve volta atrás na tensa escalada que resultou, em julho, em sua primeira condenação a quase dez anos de prisão, depois de o juiz Sérgio Moro considerá-lo beneficiário de um apartamento tríplex no Guarujá, litoral de São Paulo, oferecido pela empreiteira OAS em troca de contratos na Petrobras.

"Quando era criança, conheci a fome e nunca ousei roubar nem uma maçã. Como poderia roubar um apartamento?", afirmou Lula há uma semana.

Com outros seis processos abertos, o confronto ressuscitou o combativo líder sindical, cuja trajetória não parou desde que deixou o chão de fábrica até ser eleito Presidente da República; mas os escândalos e a crise corroeram aqueles 87% de popularidade, com os quais deixou o Planalto, em 2010.

'Estrela de rock' 

Nascido na aridez de Caetés, interior de Pernambuco, Lula conheceu desde criança o lado dramático da pobreza que castigava quase um terço dos brasileiros.

Sétimo filho de um casal de analfabetos, foi abandonado pelo pai antes de a família emigrar para a industrial São Paulo, assim como outros milhões de conterrâneos.

Ele foi vendedor ambulante e engraxate. Aos 15 anos, iniciou a formação como torneio mecânico, perdeu um dedo mindinho ao operar um torno mecânico, ao final dos anos 1970 liderou uma greve histórica que desafiou a ditadura militar (1964-85).

Brasília, no entanto, precisou esperar e foi derrotado em três ocasiões como candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que ele próprio cofundou em 1980.

Quatro anos antes, este sindicalista carismático havia se apresentado em uma conferência do economista Eduardo Suplicy. Na época, tinha formação de operário, mas queria saber tudo sobre distribuição de renda.

"O Lula tem uma capacidade de assimilar conhecimentos e de se pronunciar de uma maneira tão clara que conseguiu entusiasmar a população brasileira e, especialmente, porque ele sempre manteve um contato muito próximo com a população e inclusive com a população mais pobre", contou à AFP Suplicy, que também foi cofundador do PT e senador durante 25 anos.

O político a quem a revista Foreign Policy chamaria posteriormente de "estrela de rock da cena internacional", chegou finalmente à Presidência em 2003. Durante seus dois mandatos, empurrados pelo vento favorável da economia mundial, 30 milhões de brasileiros saíram da pobreza.

E coroou sua Presidência conseguindo a sede da Copa do Mundo de futebol de 2014 para o Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016 para o Rio de Janeiro.

Sem limites

Mas aqueles anos de glória foram a raiz dos problemas que o conduziram às portas da prisão, como muitos apontam e afirmou em setembro seu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, agora preso por corrupção.

"[Lula] dissociou-se definitivamente do menino pobre retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem cítica (...), do poder sem limites", escreveu aquele que foi um dos mais influentes líderes do PT.

Os dois haviam sobrevivido juntos ao escândalo do Mensalão, em 2005, um esquema milionário de contabilidade ilegal para comprar o apoio de congressistas, após o que Lula desmontou a direção do partido.

Ele conseguiu se manter à margem, foi reeleito em 2006 e em 2010 carimbou a vitória de sua sucessora e afilhada política, Dilma Rousseff (destituída em 2016 pelo Congresso).

Pouco depois, foi diagnosticado com um câncer na laringe, do qual foi curado, embora a doença tenha deixado ainda mais rouca sua voz, que agora ergue para dizer que continuará lutando para voltar ao poder e restituir a honra de sua esposa, a falecida Marisa Leticia, citada com ele em alguns processos a que responde. 


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