No primeiro trimestre de 2026, o mercado de reposição bovina no Brasil atingiu um patamar histórico, com os preços do bezerro retornando aos picos do último ciclo de alta. Em algumas praças, as cotações já alcançaram R$ 18 o quilo e a tendência é de valorização contínua.
Segundo Lourenço Miguel Campo, leiloeiro rural e diretor da Central Leilões, o cenário é definido por um fator determinante: a falta absoluta de oferta em todas as categorias, desde o bezerro até o boi gordo e matrizes.
A rapidez da valorização surpreendeu o setor, com aumentos registrados logo no início do ano, um movimento atípico para o período. “Não me recordo na minha vida de pecuária um final de janeiro com aumento de boi. Não tem paralelo”, afirma Lourenço.
Esse aperto na oferta já reflete em algumas regiões, como Pará e Rondônia, onde negócios de boi gordo foram reportados a R$ 360.
A escassez é generalizada e afeta produtores de todos os portes. “Se você procurar bezerro em qualquer lugar do Brasil hoje, vai ter dificuldade de comprar. Não está tendo oferta”, destaca o especialista.
Retenção de matrizes começou
Um ponto importante para a compreensão do mercado atual é o comportamento em relação às fêmeas. Em 2025, o abate de vacas permaneceu alto, mesmo com o bezerro em ascensão, por conta da necessidade dos produtores de matar vaca para pagar conta.
Entretanto, esse cenário começou a mudar em 2026 e a retenção de matrizes para recomposição do rebanho tornou-se a nova realidade.
“Até janeiro, as fêmeas Nelore eram vendidas com algum deságio. Hoje, matrizes de cria já são comercializadas com ágio de 5% a 10% sobre o peso”, observa Lourenço.
O leiloeiro ainda destaca que a fêmea meio-sangue Angus consolidou-se como o “grande produto” para carne de qualidade, com valor por quilo que, por vezes, supera o do macho.
O movimento de alta vai se sustentar?
Apesar da preocupação com a sustentação de preços muito elevados, Lourenço acredita que a alta será duradoura devido ao cenário global de estoques baixos de proteína vermelha.
Ele ressalta que o Brasil possui uma vantagem estratégica: “O país que tem capacidade de recuperar o rebanho mais rápido é o Brasil, por conta do custo de produção. Nós temos o pasto. Enquanto competidores como os EUA dependem de grãos caros, o Brasil recompõe seu estoque de forma mais eficiente.”
Para os recriadores e terminadores, o desafio é gerencial. Para compensar o alto custo de aquisição do bezerro, a estratégia tem sido retardar a entrada no confinamento, aproveitando o pasto para produzir uma carcaça mais pesada antes da terminação.
A análise de Lourenço Miguel Campo, que complementa os dados desta reportagem, está disponível na íntegra em entrevista ao programa Hora da Reposição, no DBO Play, apresentado pelo jornalista Ivaris Júnior.





