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Mineração em Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça e Prado gera preocupação ambiental

Projeto da multinacional Energy Fuels prevê pesquisa mineral no extremo sul da Bahia e levanta questionamentos sobre possíveis riscos de contaminação

Mineração em Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça e Prado gera preocupação ambiental
Por: EM TEMPO
postado em 10 de outubro de 2026

Um projeto de mineração da multinacional Energy Fuels, empresa do setor de urânio com sede nos Estados Unidos, tem despertado preocupação no extremo sul da Bahia. A iniciativa envolve 19 títulos minerários distribuídos entre os municípios de Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça e Prado, região reconhecida por sua biodiversidade, suas praias, suas áreas protegidas e pela presença de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Os títulos minerários estão relacionados à pesquisa de substâncias como titânio, cassiterita e ilmenita. No entanto, em comunicados dirigidos ao mercado internacional, a empresa declarou ter interesse principalmente na monazita, mineral que contém terras raras e pode apresentar urânio e tório em sua composição. A diferença entre as substâncias indicadas nos registros minerários e os minerais destacados pela companhia em suas divulgações levanta questionamentos sobre o alcance do projeto e os procedimentos necessários para seu eventual avanço.

Região de importância ambiental

O extremo sul baiano reúne ecossistemas costeiros de grande relevância ecológica, incluindo áreas de restinga, manguezais, remanescentes de Mata Atlântica e ambientes marinhos. A região também abriga unidades de conservação, territórios tradicionais e áreas relacionadas à alimentação e à reprodução de espécies marinhas, entre elas as baleias-jubarte.

Mineração em Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça e Prado gera preocupação ambiental

Sobrevôo no litoral do Arquipélago dos Abrolhos e Alcobaça. — Foto: Manu Dias/GOV BA

Nesse contexto, a possibilidade de implantação de atividades de mineração exige atenção aos impactos que a retirada e o processamento de areias minerais podem provocar no meio ambiente.

Entre os aspectos que precisam ser avaliados estão possíveis alterações no solo e no lençol freático, mudanças na dinâmica das dunas e da linha costeira, geração de resíduos e interferências nos habitats naturais. A dimensão desses impactos depende da localização das áreas de intervenção, do método de extração e das características geológicas e ambientais de cada local.

Monazita e a questão da radioatividade

A monazita é um mineral que contém elementos de terras raras e pode apresentar concentrações de urânio e tório. Por isso, sua extração, concentração, transporte e processamento exigem procedimentos adequados de controle ambiental e radiológico.

A presença desses elementos não significa, por si só, que ocorrerá contaminação. A avaliação dos riscos depende das concentrações encontradas, das formas de processamento, da exposição de trabalhadores e comunidades e do gerenciamento dos materiais e resíduos gerados pela atividade.

Para esclarecer os possíveis efeitos do projeto sobre a população e os ecossistemas locais, são importantes estudos de caracterização radiológica, análises da qualidade da água e do solo e informações transparentes sobre os procedimentos previstos para o manejo dos minerais.

Pesquisa mineral não significa autorização para explorar

Outro ponto central é a situação legal dos 19 títulos minerários. A autorização para pesquisa mineral não equivale automaticamente à permissão para iniciar a extração comercial.

No Brasil, a pesquisa e a lavra mineral estão sujeitas a procedimentos próprios perante a Agência Nacional de Mineração (ANM). A implantação de um empreendimento também pode depender de licenciamento ambiental e de outras autorizações, conforme as características e a localização do projeto.

Por isso, é necessário verificar individualmente os processos minerários, as substâncias registradas, a situação de cada título e a existência de requerimentos ou licenças relacionados a etapas posteriores da atividade.

Também é importante esclarecer se as áreas pretendidas coincidem ou apresentam influência potencial sobre unidades de conservação, territórios indígenas, comunidades tradicionais e ambientes marinhos protegidos.

Comunidades precisam de informações claras

Além das questões ambientais, um empreendimento dessa natureza pode produzir efeitos sobre atividades econômicas e modos de vida locais, especialmente a pesca artesanal, o turismo e o uso tradicional do território.

A avaliação do projeto deve considerar a participação das comunidades potencialmente afetadas, a divulgação dos estudos técnicos e a identificação de medidas para prevenir, reduzir ou compensar impactos, quando legalmente cabíveis.

A transparência sobre os planos da empresa e sobre as decisões dos órgãos públicos é fundamental para que moradores, pesquisadores, organizações ambientais e autoridades possam acompanhar o processo.

O que ainda precisa ser esclarecido

Para dimensionar os riscos e a situação efetiva do empreendimento, é necessário obter os documentos completos dos 19 títulos minerários, os comunicados originais da empresa, eventuais estudos ambientais e informações atualizadas sobre o licenciamento.

Também é importante ouvir a Energy Fuels, a Agência Nacional de Mineração, os órgãos ambientais competentes, representantes das comunidades locais e especialistas em geologia e radioproteção.

Até que essas informações sejam confrontadas, não é possível afirmar que houve contaminação ou que a exploração comercial esteja autorizada. O que está em discussão é a necessidade de esclarecer o alcance do projeto, os minerais que a empresa pretende explorar e as salvaguardas exigidas para uma atividade potencialmente sensível em uma região de elevada importância ambiental.

O desafio é garantir que qualquer decisão sobre o futuro do projeto seja baseada em informações verificáveis, avaliação rigorosa dos riscos e transparência com a população do extremo sul da Bahia.

Mineração em Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça e Prado gera preocupação ambiental

Mineração em Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça e Prado gera preocupação ambiental

Multinacional mira terras-raras e urânio no santuário ecológico do sul da Bahia. — Foto e fonte: O Globo